quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Minha mãe ligou-me hoje cedo
- despertei atordoado -
Tia Flora havia morrido...
antes de desligar - ainda - me disse
"Não esqueça do casamento de sua prima Nora semana que vem"
Nem tive tempo
de contar o sonho dourado que tive
em que meus pés
eram feitos de bronze
& asas de cetim
saltavam plumas
aveludadas...
Falou-me tanto,
eu nada disse.
Tia Flora
embalando a
balança
até ferir-me
o joelho
ao debater-me
no
duro solo.
Abraçou-me
soprou a
dor e a ferida.
Assim foi-se Tia Flora
num telefonema
de domingo...
A ducha estava
fria
o ovo mexido gelado,
nem ao menos o café requentado
tinha gosto de ontem.
Coitada
Tia Flora & seu dente dourado
como os sábados
no parquinho do Bonfim.
Paro de choramingar
e o sol nos meus olhos
penetra minha catarata.
A atriz gorda sorri na televisão
Seguro-me na poltrona
& me levanto para segunda-feira.

Rodrigo Chagas.
04/12/24.

terça-feira, 11 de junho de 2024


Na ponta dos pés
tentando tocar o firmamento
assim
estava
você
quando nos conhecemos.
tolamente
pedi para acender
o seu cigarro
meu peito
em combustão
vulcânica
tossiu seu nome.
dentes amarelos
sorrindo
dizendo
o quão
tolinho
eu
era.
Calcei seus pés sujos & machucados
sem nem ao
menos lavá-los numa branca bacia esmaltada
para poder jogar
a água suja pela janela acima
& acertar o vizinho que
estridentemente
ouvia algo
sujo
que incomodava a nós 2.
Um par
de meias
furadas
naufragava
na tempestade
n´um longo varal azul.
Ligamos a luz
para afastar as baratas
deixamos as portas abertas
& as gavetas vazias.
Desvio o caminho do seu olhar
e erramos de direção.

Rodrigo Chagas
12/06/24