Quando finalmente fui enterrado
tive uma alucinação
vi você correndo
feliz com a chuva
molhando seu estômago
e seus pés sorriam sujos
de lama
Quando eu - ainda - estava aqui
ronronando entre seus
tornozelos
com meus pelos retorcidos
você dizia
"maneire um pouco rapaz"
como se para um tufão
que faz
borboletas
despedaçarem
n´um cerebelo
confuso
O namorado que desceu as escadas
chorando fortemente suas pegadas
eu...eu...já fui um desses também
não conseguindo parar
desci até o sótão
do último porão
que escondia o seu sorriso
enquanto eu descia profundamente
dentro de ti...
movia
chacoalhava
pra dentro de você
até sair como um grito pela garganta inflamada - em todos os poros...
é o fracasso
daqueles que ultrapassaram a era moderna
meu sapatos furados
não seguram
a torrente molhada
de qualquer esgoto aberto
rasgos sujam toda minha mente
subindo pelos calcanhares
até os fios de cabelos que não crescem mais
bolsos furados não adiantam
se as moedas nunca caem dentro deles
eu pulo fora
nunca consegui estar
dentro
o trem partiu
e a única passagem que eu tinha
esqueci que iria perdê-la
assim que a guardasse
no meu roto destino.
Rodrigo Chagas
29/05/26