terça-feira, 23 de junho de 2026

Desperto de sonhos elétricos 
Minha cabeça arde
Minhas narinas explodem
Um largo
Sorriso 
Emoldurado 
Na parede
Esburacada
Acena para mim
Minhas mãos se movem
até a cozinha
Acendem
as luzes 
Que não servem pra nada
...mais...
Derrubo um copo americano
A água espatifa-se por todo o teto
Goteiras 
Se unem 
E pingam 
Sob meus pés 
Alguém me
Chama
Corro até o banheiro
Me escondo
Abaixo da pia
Escorre a água 
E o rio passa
Sem alagar
As minhas meias
Encharcadas
Do seu 
 - breve -
adeus...

Rodrigo Chagas
23/06/26

segunda-feira, 8 de junho de 2026

  

Você me fez rir
mesmo
quando
o frágil
cristal
estatelou-se contra
- o duro -
solo
do
chão
frio & rubro
acimentado
da minha - velha - casa
uma rara
taça
Fratelli Vita
da coleção
herdada por minha mãe
abriu-se uma linha tênue
& vi você
afastando-se
rumo ao oriente
contrário
a minha direção
perdeu-se
Tenho sentido
uma solidão
dilacerante
nessa região torácica
do lado esquerdo
onde dizem se
localizar o coração...
Seu sorriso
salva-me
a madruga
seus longínquos
olhos
que nunca sei
a real coloração
- e quem se importa -
perco-me neles
por horas
séculos
dias...
Desperto
não ouço seus abraços
fecho a janela
na esperança
que jogue uma pedra
no meu ventrículo
quebrando a vidraça
do frio vento junino
de minha
outonal
esperança...

Rodrigo Chagas
08/06/26

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Quando finalmente fui enterrado
tive uma alucinação
vi você correndo
feliz com a chuva 
molhando seu estômago
e seus pés sorriam sujos 
de lama
Quando eu - ainda - estava aqui
ronronando entre seus
tornozelos
com meus pelos retorcidos 
você dizia
"maneire um pouco rapaz"
como se para um tufão
que faz
borboletas
despedaçarem
n´um cerebelo 
confuso
O namorado que desceu as escadas
chorando fortemente suas pegadas
eu...eu...já fui um desses também
não conseguindo parar
desci até o sótão 
do último porão
que escondia o seu sorriso
enquanto eu descia profundamente
dentro de ti...
movia
chacoalhava
pra dentro de você
até sair como um grito pela garganta inflamada - em todos os poros...
é o fracasso
daqueles que ultrapassaram a era moderna
meu sapatos furados
não seguram 
a torrente molhada 
de qualquer esgoto aberto
rasgos sujam toda minha mente
subindo pelos calcanhares 
até os fios de cabelos que não crescem mais
bolsos furados não adiantam
se as moedas nunca caem dentro deles
eu pulo fora
nunca consegui estar
dentro
o trem partiu
e a única passagem que eu tinha
esqueci que iria perdê-la
assim que a guardasse
no meu roto destino.

Rodrigo Chagas
29/05/26

segunda-feira, 27 de abril de 2026

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026



Neste verão tem chovido bastante
 - A cântaros
dizia o velho moço
da rua de trás -
essa cidade é totalmente
sem graça
sem você
sem sua presença
você arruma sua bagagem
e some para sempre
na parte sudoeste
desse continental país
volto pra casa chutando
pedras pontiagudas
se ao menos ferisse
meu pé calçado
protegido por uma bota antiga
mas não
dói em toda parte
menos meus maléolos desmembrados
é uma longa distância
até o centro
onde vc está sorrindo
- eternamente -
na fotografia
que carrego no celular
não tiro do bolso agora
porque a cidade perigosa
vai me fazer perder ainda mais
& tem as gotas de chuva
que enferrujam
tudo
estragam a parte eletrônica
do meu toque digital
Anteontem vc perdeu seu pai
esta manhã você se foi
fico aqui - agora - perambulando
até chegar ao ponto
estaciono meus pés numa poça
vejo minha figura contorcida
por um momento cantarolo uma canção
lembro de vc gargalhar
de minha voz
estranha
Neste janeiro
cinzas
pela
quente janela
amolecem meus ventrículos
cefalorraquidianos
quando na verdade
eu queria dizer:
estilhaçam
meu abandonado
coração

Rodrigo Chagas
17/01/26