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segunda-feira, 27 de março de 2023

1 poema abandonado que nunca acabei


Após vc ter me deixado na estação de metrô

- do centro velho da cidade -

enquanto a chuva começava

a sua força 

segurei o pacote pardo

de pão

amarrado com um grosso barbante amarelo...

eu sabia de tudo que ia suceder


Você havia lido isso num poema

antigo que escrevi...


Uma formiga carregava um fardo maior que o meu

mas eu sentia o peso da chuva

- ainda fina -

cair sobre os meus ombros...


Rodrigo Chagas

10/06/22

domingo, 5 de junho de 2022

Tenho acordado tão cedo
antes do seu despertar
e do seu sorriso
de dentes irregulares...

Caminho 
- descalço -
entre os gatos
& o chão frio
acimentado

Gotículas...
milhares delas
caem no - quase - 
frio
firmamento
soteropolitano
tão distante de La Paz
tão distante de vc

Sua pequena cama
tão diminuta quantos
suas minúsculas mãos
ainda evapora
o meu desejo
não completado 
pelo seu corpo

Escovo os dentes
com a escova
que encontrei nas coisas encaixotadas
que vc apontou na noite anterior

tento engolir o café
e as coisas que vc me disse...

molho o rosto...
pego a sombrinha despedaçada
e os cacos do meu músculo torácico partido em miúdas partículas...

calço as botas
coloco esse poema no bolso
desaparecemos sob o céu cinza
tentando pensar em algo melhor para finalizar o que escrevinho
e vê-la gargalhar novamente...

a luz avermelha-se
o ônibus embaça minhas lentes
meu peito sufoca...

você docemente 
dorme na cama
em que eu desejava estar...
tenho sido a manhã
e vc a madrugada...
tão distantes...

Amanhã...volto com a chuva e as trovoadas
tão difícil abandonar esse poema
quanto acabar com você...

Rodrigo Chagas
05/06/22